Edifício J.P. de Azevedo, número 145. O último prédio do bairro. Você está doido pra ir para casa. A placa do lugar está gasta. Um dia foi uma bonita placa dourada, com as letras e os números em baixo relevo. O prédio, estilo americano, tem quatro andares e quatro degraus para chegar até a porta. No lado direito, um interfone com quatro números. A porta principal é de ferro com grades. Aberta, como de costume, a essa hora da tarde. A segunda, que leva ao hall, tem um vitral com um desenho cubista de um cão caçando patos. Também aberta. Ao entrar, você pode ver um corredor ligeiramente largo e estreito, com azulejos geométricos forrando o chão. Quando a luz do sol bate na porta, as cores do vitral formam um desenho bonito nos azulejos e nas paredes. Um desenho que não é mais um cão caçando patos. Na parede à esquerda, pode-se ver as caixas de correspondências. Quatro pequenas caixinhas de madeira, surradas pelos anos e pelo abrir e fechar das portinholas. Você abre sua bolsa, abre as portinhas, e coloca as correspondências ali. Ao abrir a segunda portinhola, a mesma faz um barulho, como se pedisse que essa fosse a última vez em que seria aberta. Não será. Você coloca uma carta para cada morador. Exceto o último, que além da carta, recebe um presente também, que parece ser um anel. Ao lado das caixas, fica um espelho quadrado com manchas, que ainda mostra o que parecem ser lembranças de cada face que ali, viram o seu verdadeiro rosto. Rostos tristes. E no fundo do corredor, de frente para a porta, fica sentado uma figura extremamente singular, que parece não chamar quase a atenção das manchas no antigo espelho. Um singelo e dorminhoco porteiro. Sentado ao lado da escada, onde a luz colorida do vitral chega se arrastando, para disputar lugar com as sombras do corredor.
É um senhor de pele morena, rosto arredondado e barba branca, já com seus 60 anos. O chamam de Jojô. Um tanto saliente. O bastante para usar sua barriga de apoio para as mãos, que apóiam ao pescoço, que apóia a cabeça de face redonda, e que por fim, apóia uma velha boina xadrez, nas cores verde, vermelho e preto. Usa o que parece ser um velho uniforme de marinheiro, só que curiosamente, cinza. Talvez um dia tenha sido branco. Seus sapatos são bonitos e engraxados. Bico quadrado. Estão cruzados um sobre o outro. O porteiro, possui a pele do que podem ter sido anos de trabalho ao sol, mas os pêlos alvos como algodão. Sua barba está feita, e o bigode, parece ser aparado por lâminas feitas unicamente para isso: apará-lo. Seu cabelo, ou não existe, ou está escondido sobre a boina, como o próprio Jojô se esconde sobre as sombras do corredor.
Você nunca viu como o porteiro chega ao prédio, e nem como vai embora. Também nunca viu seu Jojô acordado. Está sempre dormindo. Uma vez, você encontrou ali, um morador que o cutucou para ver se não tinha morrido. O velho porteiro então, suspirou forte, fazendo um movimento exótico com a barriga, mas sem abrir os olhos cansados por segurar as grossas e hirsutas sobrancelhas.
- Pois bem, está vivo - Disse o morador, dando um caloroso sorriso de quem já está acostumado com a figura. Era um rapaz simpático, com seus 20 e poucos anos. Mas que parecia ter seus problemas, como todo mundo. Talvez seja ele que vá receber o presente hoje.
Mas hoje não tem morador. O rapaz ainda não foi buscar seu misterioso pacote (se é que é dele). Só estão você e seu Jojô.
Se você é alguém que observa bem as pequenas coisas, pode perceber algo em seu Jojô. Algo talvez tão difícil de perceber, quanto a velha tristeza nos borrões do espelho. Talvez, tão difícil de se ver quanto o efeito das luzes do vitral no interior do hall. E talvez, tão difícil de perceber quanto os problemas do jovem morador, escondidos sobre o riso rido para espantar esses problemas. Hoje, seu Jojô parecia mais inerte do que nunca. Mais inerte do que o espelho, do que as caixas de correspondência, mais inerte do que o cão que caça os patos. Mais inerte que os próprios patos. Será que... Não. É claro que não. Você está pensando bobagens. Está cansado, por ter entregado cartas o dia todo. Precisa ir pra casa, descansar. Amanhã, quando voltar, ele estará parado com sempre esteve.
Não, você não consegue ir embora. Algo lhe diz que você deve tomar uma providência. Cutuque-o. Isso, cutuque-o. Faça como o morador. O que ele pode fazer, brigar com você? Talvez ele acorde e olhe pra você, surpreso, por nunca tê-lo visto na vida. Afinal, ele está sempre dormindo.
Ande logo. Você olha lá para os azulejos. Já não se pode mais ver as cores do vitral como antes. Quanto tempo você perdeu aqui? Uma hora, duas, talvez? O crepúsculo já caminha nas ruas, acendendo alguns postes nas calçadas.
- Ande logo com essas cartas, rapaz - você ouve - Já está escurecendo. As ruas ficam perigosas depois das oito.
Uma voz rouca se dirige a você, fazendo vibrar seus pulmões .
Você se vira a tempo de ver seu Jojô coçando o nariz com a parte superior da mão esquerda. Depois disso, a inércia parece se apossar do porteiro novamente. Mas ele está vivo. Ele se mexeu como você nunca havia visto antes. Ele falou com você. Por algum motivo, você se sente uma criança que vê uma estrela cadente na imensidão do céu. Você simplesmente sorri um sorriso sem jeito, mesmo sabendo que ele não viu esse sorriso. Você se vira, e caminha até a porta. A primeira porta tem um vitral com um desenho cubista de um cão caçando patos. Está aberta, como de costume. Quando a luz dos postes bate na porta, as cores do vitral formam um desenho bonito nos azulejos e nas paredes. Um desenho que não é mais um cão caçando patos. A segunda porta, que leva à rua, é de ferro com grades. Também aberta. Mas a essa hora da noite, você a bate, para trancá-la.
O prédio, estilo americano, tem quatro andares e quatro degraus para chegar até a calçada. No lado esquerdo, um interfone com quatro números.
Edifício J.P. de Azevedo, número 145. O último prédio do bairro. Você está doido pra ir para casa.